ENTREVISTA COM UM HOMEM-BOMBA NACIONAL (Arnaldo Jabor)

("Pra ganhar esta guerra, vocês têm de começar o Brasil de novo...")

- Você é traficante ?

- Sou. Mas sou também um sinal de novos tempos. Como sou sujo e
pobre, vocês nunca me olharam durante décadas. Eu era inofensivo, uns roubos,
uns assaltos mas, tudo bem. Vocês até me romantizavam... o Mineirinho, o
Cara de Cavalo. Na época, era mole resolver o problema da miséria. O
diagnóstico era óbvio: migração rural, seca, desnível de renda. A solução é que nunca
vinha.
Os Mendes de Morais, os Lacerdas, os Negrões de Lima, os Chagas, os
Brizolas, os generais... que fizeram? Nada. O governo federal alguma
vez alocou uma verba para nós? Nós éramos invisíveis. Quando havia um
desabamento, algo assim, éramos, no máximo, manchete de jornal e
motivo de angústia para uns intelectuaizinhos como você. Agora, arranjamos
emprego na multinacional do pó. E vocês estão morrendo de medo. Danem-se. Nós
somos o início tardio de vossa consciência social. Há, há.

- Mas a solução seria ...

- Solução? A idéia de "solução" já é um erro. Não há mais solução,
cara.
Já olhou o tamanho das 450 favelas do Rio? Já andou de helicóptero por
cima da periferia de São Paulo? O máximo que vocês podem fazer são esses
movimentozinhos pela cidadania. Cadê os bilhões de dólares para uma
"solução" profunda? Só que, agora, vocês não têm mais a grana. Está
tudo reservado para manter a estabilidade fiscal, que pode ir para o brejo
a qualquer momento. Vocês estão com um bode por fora e outro bode por
dentro.
O capital financeiro fora e nós dentro. E os bodes vão se encontrar no
infinito sujo de vosso destino. Gostou da frase? Sou culto; ouve
outra:
"Capitalismo selvagem gera revolta primitiva." Aliás, tomara que
quebre tudo. Vai ser mais fácil pra nós pilharmos vossas ruínas. Há, há.

- Você não tem medo de morrer?

- Estamos no centro do Insolúvel, "mermão". Vocês no "bem" e eu no
"mal" e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira. Vocês têm medo de
morrer, eu não. Nós somos homens-bomba. Na favela tem 100 mil
homens-bomba.
É... Já somos uma outra "espécie", já somos outros bichos, diferentes
de vocês. A morte para vocês é um drama cristão numa cama, no ataque do
coração. A morte para nós é o "presunto" diário, desovado numa vala.
Vocês, intelectuais, não falavam em "luta de classes", em "seja marginal seja
herói?" Há, há. Aí está, vocês nunca esperavam esses guerreiros do pó,
né?
Esse "parangolé" todo, né? Vocês deviam era expor a gente na Bienal,
como "instalação".

- O que mudou nas periferias?

- A gente hoje tem uma coisa chamada Poder. Por que transferiram o
Beira-Mar para a Bangu 1? Pois é, lá ele manda. Você acha que quem tem
40 milhões de dólares não manda? Com 40 milhões a prisão é um hotel, um
escritório. Qual a polícia que vai queimar essa mina de ouro? Pelo
amor de Deus, nego chama ele até de "doutor", tá ligado?

- Se você fosse polícia, agia como?

   - Quer um "toque"? A burocracia policial segura tudo, por
desorganização e de propósito. Nós somos uma empresa moderna.
A gente não tem de arranjar ordem judicial, a gente não é dividido
em municipal, estadual e federal; é tudo rápido, enxuto. Se funcionário
bobeia, é despedido no "microondas".
Há, há... estamos ligados na tecnologia, na internet, nos armamentos
sofisticados. E tem mais: se vocês tentarem acabar com a burocracia,
com os atrasos administrativos, até se quiserem informatizar uma reles
delegacia, vão dançar, sabe por quê? Porque a polícia "quer" o atraso, o atraso
dá lucro. A polícia é feita de feudos, corporativa, delegados donos de
pedaços da cidade, ninguém quer se modernizar, tá ligado? É bom aquele clima
de 1930, de carros quebrados, sem arquivos eletrônicos. Se impessoalizar,
modernizar, estraga a muamba. Além disso, estamos virando superstars
da mídia. A imprensa dá idéias, sugestões, enche nossa bola do crime.
Vocês estão nos dando uma ideologia, sem perceber. Já tem nego aí querendo
armar esquema com a Al-Qaeda, podes crer. Outro toque: por que não pegam os
"barões" do pó? Tem deputado, senador, tem generais, tem até
ex-presidente do Paraguai nessa parada de armas e cocaína. Essa é que é a mina de
ouro, nas fronteiras. Mas, não tem polícia pra enfrentar esse poder
internacional, não. A gente é mixaria. A verdadeira Guerra do Paraguai vocês estão
perdendo agora, tá ligado?

- Estão pensando no Exército...

- Ah, cara. Você acha que os generais vão querer acabar com aquele
dia-a-dia dos quartéis, pra subir em morros de lama? Que isso, meu?
Eles ficam jogando aquele basquete de tarde, marcham, tocam os clarins,
cantam hinos. Mas, ir à luta com o PCC e o CV? Com risco de darem vexame? Pra
quê?
Eles dizem que são treinados para causas maiores, guerras profundas.
Só se for com a Argentina. E também a gente já tem até foguete antitanques.
Se bobear, vão rolar uns Stingers aí. Já imaginou a gente daqui a uns dez
anos?
Pra acabar com a gente, só jogando bomba atômica nas favelas. Aliás, a
gente acaba arranjando também umazinha, daquelas sujas mesmas. Já pensou?
Ipanema radioativa? Bomba atômica é uma boa. Vocês arrasam tudo e depois as
favelas se valorizam, viram bons terrenos para vender pros ricos, belas
vistas, bons ares. Podem até fazer Centros Culturais no Complexo do Alemão e na
Maré, legal? Se não, a gente vai virar países estrangeiros. Vou fazer frase:
"A miséria armada é uma outra nação, no centro do Insolúvel!" Gostou?
Olha, meu chapa, só generais saídos da favela, da lama, com a mesma fome de vida
e morte, com o mesmo ódio que nós temos, poderiam nos vencer. Nós saímos
do lixo, não temos nada a perder. Pra vencer, vocês tinham de começar
reconhecendo sua derrota policial e administrativa. A guerra é o
reconhecimento do fracasso da política. É isso aí.. A bandidagem
perdeu o respeito pela polícia. Agora, não tem mais jeito. Pra ganhar esta
guerra, vocês têm de começar o Brasil de novo. Falei?

- Falou ...


Isso é mais importante que crianças e cintos de segurança!
Não sei como eu fui parar na sua lista, mas agora você parou na minha.